Bem-vindo

Bem-vindo

domingo, 15 de maio de 2011

Isso é o que da fazer tempestade em copo d'água






- Ouvi dizer que vai a Paris.

- Exato.

- A negócio?

- Não.

- Turista?

- Não.

- Missão política reservada?

- Não. 

- Tão secreta assim?

- Não.

- Se não sou indiscreto...transa de amor?

- Não.

- Está muito misterioso.

- Não.

- Como não? Saúde, talvez.

- Não.

- Compreendo que não queira alarmar...

- Não.

- Busca apenas repouso.

- Não

- Fugir do trabalho, então.

- Não.

- Capricho do momento.

- Não.

- Tantos não devem significar um sim.

- Não.

- Significam sim. Vou repetir as hipóteses.

- Não.

- Temos pela frente uma indústria nova, de vulto.

- Não.

- De qualquer maneira, é financiamento internacional.

- Não.

- Então a coisa está ficando preta.

- Não.

- Está preta, e há jogadas que só em Paris.

- Não.

- Percebe-se alguma coisa no ar.

- Não.

- Não dá para perceber, mas há.

- Não.

- Mas pode haver a qualquer momento.

- Não.

- Nem hipótese?

- Não.

- Nenhuma nuvem distante, muito distante mesmo?

- Não.

- No ano que vem?

- Não.

- Ouvi mal?

- Não.

- Sendo assim, é segredo pessoal? 

- Não.

- O coração é quem dita a viagem... eu sei.

- Não.

- Sim, sim. Pode confessar.

- Não.

- Hoje em dia essas coisas são públicas. Dão até cartaz.

- Não.

- Sei que não precisa disso, mas...

- Não.

- Por que não? Está com medo da imprensa?

- Não.

- Receia perder a situação social?

- Não.

- A situação financeira?

- Não.

- Política?

- Não

- Pois olhe, melhor é preparar o ambiente.

- Não.

- Claro que sim. Insinuar mudança em sua vida.

- Não.

- Discretamente.

- Não.

- De leve, só uma pincelada. Deixe comigo.

- Não.

- Não abro manchete nem boto aquela foto em duas colunas,  
aquela bacana, lembra?


- Não.

- Só cinco linhas.

- Não.

- Duas.

- Não.

- Mas tenho de dizer alguma coisa.

- Não.

- O senhor é notícia.

- Não.

- Pode dizer que não, mas é sim.

- Não.

- Puxa vida, o senhor hoje está medonho. Resolveu responder não a tudo que é pergunta minha?

- Não.

- Ah, é? Então vamos recomeçar: o senhor vai a Paris?

- Vou.

- E que é que vai fazer em Paris?

- Ver.

- Ver o quê?

- O Último Tango em Paris.

- E por que é que não me disse isso logo, homem de Deus?

- Você não me perguntou, por que eu havia de responder?
Carlos  Drummond De Andrade 


Porque as vezes temos o costume de fazer rodeios quando não tem boi nem cavalo, temos costume de procurar sarna quando não tem nenhum cachorro por perto ou então vestir a carapuça quando nem cabeça temos pra pensar avalie vesti-lá.


Preciso de pessoas simples, sucintas que não enrole muito a vida.


Coisa simples de hoje - Quero comer pudim!
         


Nenhum comentário:

Postar um comentário