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domingo, 22 de maio de 2011

Divagações




É por essas e outras que a vida fica tão sem graça. Mas pode ser só um dia nublado.



Eu estou aqui para derramar minhas palavras. Lamento, leitor, se elas esbarram em você. Sai da minha frente, então! Não vim ao mundo para agradar a ninguém. E por mais que eu tente, não consigo mesmo. Então não tenho a ousadia de agradar a gregos e troianos numa mesa hitleriana patrocinada por judeus e palestinos. A esquerda e a direita que se danem no banquete do centro. Eu sou o de fora. Há sempre, sim, esse jogo de contrários em tudo quando existe nesse mundo. E eu abandonei há tempos aquela necessidade de agradar a todos. Nada mais me desagrada senão a desagradável mania de alguém querer sentir-se agradado. Agrade-se do que quiser, a mesa está posta, o jogo foi iniciado, a sorte está lançada, o destino traçado, de algum modo que não sabemos, pelas erínias. Ou não, traçamos o destino a cada momento desprezível que gastamos do tempo efêmero que temos. Vai saber... viva sua vida como quiser e busque a morte se for seu desejo. Só quero que me deixem ser medíocre e tolo, sonhador e fútil, pequeno e insignificante. Pois pode ser nisso tudo que hei de encontrar uma certa grandeza, talvez a grandeza de ser nada. Todo mundo é alguma coisa, todo mundo quer, todo mundo faz, todo mundo tem. Busca, luta, tenta, cai e levanta, tenta outra vê, acredita, se desespera, enlouquece, corre, corre, corre e morre. Eu não! Minha vida não é um filme hollywoodiano de aventuras. Muito menos um dramalhão mexicano ou uma novelinha global. Minha vida é a merda da realidade protocolar e inútil, pasmaceira de mesmices, enjoamento de mesmos rostos, expressões, histórias e palavras. Minha vida se faz no que se desfaz e ninguém podem saber, se o começo é o fim ou se o fim é o começo.
Pouco importa o saber, por mais que o venere com inquebrantáveil fidelidade, pouco importa o saber, que não me tira o cansaço, não me renova inexistentes esperanças, não traz nenhum alento para a angústia latente de tantas madrugada insones, pensativas e estarrecedoras. Deixo os outros saberem muito mais do que eu sobre tudo o que nem se escreveu ou nem se pensou. Academia de sábios insatisfeitos é aquela que usa o saber para deleitar da própria vaidade, enquanto a maior vaidade que tenho é poder defecar o que comi. Então eu me alimento de sonhos, de palavras e de conhecimentos alheios, de sonhos e visões dos iluminados, de lirismo  dos desenganados. Eu me alimento das alucinações dos tresloucados. E das dúvidas dos profetas e dores dos poetas. Eu hei de sempre cagar poesia!
E limparei a bunda com tantas páginas escritas.
Pouco me importa saber se sou deus ou demônio. E se não sou nenhum deles, pouco me importa saber de qual deles sou. Desconfio que deus criou a escuridão e o demônio a luz. Dá pra saber quem plantou no paraíso a árvore do conhecimento do bem e do mal. Sei que somos todos órfãos. Estamos sós na madrugada do universo. Minha prece sempre foi o grito preso na garganta depois de mais um pesadelo. Eu não tenho medo do medo que tenho. Nem do medo que me oferecem gratuitamente de um milhão de modos diferentes nessa era decadente cujo avanço em matéria de comunicação possibilitou cada vez mais ninguém se comunicar com ninguém.
O que querem que eu seja? Meu gosto é muito duvidoso para escolha de uniformes. Não me caem bem os cintos de castidade (bem como a própria castidade), mas também roupinha de rebelde sem causa também não me assenta. A revolta que me atrai é aquela que me repele. A causa que me fascina é a que me exclui. Eu não gosto de parecer com nada que anda por aí, por isso disfarço bem.
Desculpe, caro leitor, nunca sairá de mim algo começando com “ era uma vez...” e terminando com “...e viveram felizes para sempre.” Porque a vida não é um filme de Hollywood, nem um dramalhão mexicano ou  uma novelinha global. A vida é essa maravilhosa merda... protocolar e inútil, aquelas coisas todas que já disse.
Para derramar minhas palavras. E para elas esbarrarem em você! Sai da frente. Eu tenho que passar tão rápido como passam as horas de meus dias.

By Marcos Lizardo

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